HISTÓRIA DA MEDICINA artigo 59

NOTÍCIAS SINÓPTICAS – Parte I

Dr. Antonio Carlos Nogueira Britto
Presidente do Instituto Bahiano de História da Medicina e Ciências Afins.
Fundado em 29 de novembro de 1946

Grandiosos momentos no Salão Nobre da Faculdade de Medicina da Bahia, no Largo do Terreiro de Jesus

As exéquias de J. J. Seabra
Comoventes e solenes honras fúnebres na missa de corpo presente celebrada em câmara ardente armada no pomposo Salão Nobre da Faculdade de Medicina da Bahia

Tarde de sexta-feira, 10 de Dezembro de 1942 – Funéreo e pesado crepe amortalhava a cidade do Salvador desde as primeiras horas da tarde. As ruas onde deveriam passar os despojos do Dr. J. J. Seabra estavam atopetadas de gente, pesarosas, que aguardavam a passagem do féretro para prestarem sentido tributo ao velho lutador democrata, que regressava à terra que o assistiu vir ao mundo, para descansar na eternidade depois de tantas batalhas em que se sobressaiu como uma das personalidades mais notáveis da República.

Às 17 horas, o hidroavião especial, em suave amaragem sobre a água do porto dos Tainheiros, acabava de transportar desde o aeroporto do Rio de Janeiro o corpo do ilustre extinto, que era acompanhado pela digna e enlutada família.

Após a retirada do esquife do hidroplano, foi o caixão de mogno com incrustações de bronze levado até o carro mortório, entre a melancolia silente e lutuosa multidão, rumando então para a Faculdade de Medicina da Bahia entre alas de povo que se espalhava, respeitoso, por todo o percurso, patenteando o imenso pesar de que estava possuído o sentimento baiano.

Uma das mais tocantes demonstrações de tristeza foi a prestada pelo Colégio dos Órfãos de S. Joaquim, cujos alunos postados em continência militar, executaram significativo toque fúnebre à passagem do carro mortuário.

Ao chegar o féretro, premido por compacta e chorosa multidão, ao prédio da imponente e vetusta Faculdade de Medicina da Bahia, os dobres dos sinos da Catedral e das igrejas vizinhas deram a conhecer a hora das Ave-Marias, como se instassem o povo quedado no largo do Terreiro de Jesus para uma prece em memória do grande homem público, inanimado, que descansará na terra que tanto estimou enternecidamente. Na oportunidade, a multidão mostrava-se excitada em virtude dos cordões de isolamento que a mantinha afastada do esquife e que procurava prestar o seu derradeiro tributo de veneração ao preclaro homem público baiano.

Foi procedida a trasladação dos sinais da vida do insigne J. J. Seabra para o salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia, onde estava armada imponente eça. Os atos iniciais da funérea cerimônia foi filmado. Levantada a tampa do esquife, milhares de pessoas iniciaram, ante o corpo do Dr. J. J. Seabra, romagem comovente que expressava o pesar da Bahia pela morte do ínclito filho.

Durante o decorrer da noite, pessoas de todas as classes sociais desfilavam ininterruptamente ante o esquive. A cada hora, delegações de instituições eram substituídas na vigília ao celebrado chefe político baiano.

Comissões de professores, funcionários e alunos do Ginásio da Bahia revezaram-se, desde as 18 horas da chegado do corpo do muito distinto baiano ao grandioso salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia. Permaneceram no dito salão nobre até a hora em que o esquife deveria deixar a câmara ardente, ali concentrando-se ás 13 ½ horas, afim de tomarem parte, incorporados, nos funerais.

O interventor federal, coronel Renato Pinto Aleixo, acompanhado do chefe da Casa Civil, do secretariado do Estado e do prefeito da capital, Dr. Elísio Lisboa, visitou o corpo do Dr J. J. Seabra, velado no esplendoroso e lutuoso salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia.

Na câmara ardente armada no belíssimo salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia, às 9 horas da manhã, foi celebrada a missa de corpo presente. O ato litúrgico fúnebre foi oficiado pelo arcebispo primaz, D. Augusto Álvaro da Silva, acolitado pelo cônego Odilon Moreira, padre Eugênio Veiga, padre Moura Cavalcante e muitos seminaristas. Presente à missa pelo morto, o coronel Pinto Aleixo, interventor federal, o secretariado do Estado, e várias autoridades civis e militares, além de grande número de circunstantes, de todas as classes sociais que atopetavam literalmente o recinto do cerimonial funéreo no imponente salão nobre da Faculdade da Faculdade de Medicina da Bahia.

Finda a liturgia dos mortos, a multidão, que aguardava no exterior do palacete da Faculdade de Medicina da Bahia, teve autorização para a visitação ao corpo, ingressando no tradicional e histórico estabelecimento de ensino médico, estabelecendo-se o sistema de mão e contra-mão.

Grande número de capelas foi depositado no salão nobre, junto ao esquife: “Homenagem do Governo do Estado” – A cidade do Salvador ao seu benemérito filho” – “Ao dr. J. J. Seabra, o grande apóstolo da Democracia, o valente e intemerato defensor da Liberdade, o brasileiro ilustre, que tanto amou e engrandeceu a Pátria, o bahiano extremoso, que inestimáveis serviços presta á sua terra natal – Sincera homenagem da Secretaria do Interior e Justiça”. – “Ao insigne brasileiro dr. J. J. Seabra, homenagem da Secretaria de Educação e Saúde.” – “Ao dr. J. J. Seabra homenagem da Navegação Bahiana”. “Ao insigne bahiano dr. J. J. Seabra carinhosa homenagem da colônia siria-libanesa”. - “Ao dr. J. J. Seabra, homenagem da Secretaria de Viação e Obras Públicas”. – “Ao ínclito varão e grande amigo dr. J. J. Seabra, sentida homenagem da família Xavier Marques”, - “Ao dr. J. J. Seabra, homenagem de Feira de Santana ao seu grande benemérito”.

O Governo do Estado prorrogou o luto oficial que deveria terminar no dia 11 p. passado, até que se levasse a efeito a inumação do corpo de ilustre conterrâneo e fez sair à luz pelas gazetas o seguinte convite: “O Governo do Estado cumpre o dever de convidar o povo bahiano a participar das últimas homenagens que, em nome da Bahia, prestará a seu grande filho Dr. José Joaquim Seabra, que se tornou um nome nacional, pelos inestimáveis serviços prestados á sua terra natal e ao Brasil, nos vários postos que ocupou. O traje para o acompanhamento dos funerais deverá ser preto ou escuro.”

O interventor federal em Sergipe, A. Maynard Gomes, enviou condolências por meio de telegrama afirmando ao Governo do Estado da Bahia profundo sentimento pelo desaparecimento de J. J. Seabra, tendo o interventor federal na Bahia agradecido as expressões de pesar do Governo de Sergipe.

Reunida, extraordinariamente, resolveu a Legião dos Médicos para a Vitória, associar-se a todas as homenagens que seriam prestadas ao ex-governador da Bahia. O professor Eduardo de Moraes, além de designar um orador para falar no sepultamento convidou todos os legionários para acompanhar a inumação.

Durante o percurso do féretro, desde a sua chegada no hidroplano ao porto dos Tainheiros até a sua trasladação para a Faculdade de Medicina da Bahia e daí para o cemitério do Campo Santo, o serviço de policiamento esteve a cargo do Dr. Altino Teixeira, delegado-auxiliar, que superintendeu o mesmo serviço, auxiliado pelo pessoal do Departamento de Transito.

O Governo do Estado pediu permissão a família Seabra para a escolha e doação do local da sepultura do insigne baiano, sendo escolhida a campa n.º 1294, na quadra 1, esquerda de quem entra, ao lado dos túmulos de Castro Alves e de Otaviano Pimenta.

Às 15 horas realizou-se, no salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia, a sessão solene, fúnebre, em homenagem à memória do Dr. José Joaquim Seabra. Falaram na ocasião Elisio Lisboa, pelo município da capital; o prof. Mario Leal, pela Faculdade de Medicina; o prof. Jaime Aires, pela Escola Politécnica; Nelson Sampaio, pelo Instituto dos Advogados; o prof. Magalhães Neto, pela Academia de Letras, e o coronel Renato Pinto Aleixo, pelo governo do Estado.

No Rio de Janeiro, no azo da trasladação do corpo do Dr. J.J. Seabra para a cidade do Salvador, o prefeito Henrique Dodsworth discursou prestando homenagem do Distrito Federal ao ilustre extinto.

Simões Filho recebeu do prof. Hermes Lima telegrama nos seguintes termos: “João Mangabeira pronunciou uma oração maravilhosa, digna da Bahia e do grande morto.”

Na sessão do dia 10 de dezembro, a Academia Brasileira de Letras discursou sobre a personalidade de J. J. Joaquim Seabra.1

No meio da pesarosa multidão que se comprimia no salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia, suntuoso e coberto de luto, nas proximidades do catafalco onde estava depositado o esquife de Seabra para as honras funerais – a Grande Messe des Morts - , estava um belo infante, de fisionomia que exprimia a cultura dos estudos, das ciências, da literatura e das poesias, visivelmente assustado ante as lúgubres preparações do ofício dos mortos, com sentimento de viva inquietação de medo pelos negros e lutuosos reposteiros de crepe fino, de onde pendiam sombrios artefatos decorativos esféricos, que circundavam o ambiente do salão nobre da Faculdade, além dos festões de flores e o odor das chamas de círios de estearina montados em grandes castiçais. Aquela atemorizada criança chamava-se Fernando de Souza Pedroza, de 11 anos de idade, que apertava nervosamente as mãos do seu genitor, o comerciante Manoel José Pedroza, de austero caráter e retidão de integro proceder. Ao depois o menino Pedroza assistiu a passagem do féretro que conduzia o corpo do pranteado J. J. Seabra, ao entardecer, na avenida Sete de Setembro, nas imediações do Jardim da Piedade, carregado nos braços da multidão até o cemitério do Campo Santo. Jamais poderia imaginar aquela criança, que, em 1956, ao graduar-se em Medicina pela primeira instituição do ensino Médico no Brasil, seria um eterno apaixonado, possuído de um grande amor pela Faculdade de Medicina da Bahia, lutando estoicamente para que fossem afastados os males que a atormentavam, o descaso que a afligia, as calamidades que a flagelavam e a ação insana dos iconoclastas e insensatos que queriam desfigurar as suas harmoniosas e donairosas feições arquitetônicas e desvirtuar os atributos docentes das ciências médicas conferidos à provecta e bicentenária instituição de ensino médico primaz nacional. (N.A.)

A Faculdade de Medicina da Bahia, no largo do Terreiro de Jesus, tem uma gratidão imensurável ao sempre pranteado Ministro do Interior, que numa demonstração inexcedível de amor à Bahia, tão logo foi avisado por telegrama do dinâmico diretor Prof. Dr. Alfredo Thomé de Britto a respeito do pavoroso incêndio que irrompeu no edifício da Faculdade de Medicina em a noite de 02 de março de 1905, liberou o magnânimo e patriota Seabra um crédito de 600:000$00 para a imediata reconstrução do quase derruído prédio da Faculdade, que somente foi possível ter início em 6 de agosto, em razão das burocráticas e lentas desapropriações de prédios precisos para a expansão do edifício da Faculdade. A reconstrução contou com o apoio do presidente da República, Francisco de Paula Rodrigues Alves e a genialidade do celebrado engenheiro Theodoro Sampaio, o qual seguiu a orientação do projeto do arquiteto franco-argentino Victor Dubugras.2 Pelas ações beneméritas das insignes personalidades, o nosso salão nobre, considerado um dos mais elegantes e belos do Brasil, está ornado com os bustos modelados em bronze dos Drs. Francisco de Paula Rodrigues Alves, José Joaquim Seabra e Alfredo Thomé de Britto, obras do talentoso escultor Paschoale de Chiriaco e as admiráveis e solenes pinturas das suntuosas paredes e teto do portentoso salão nobre foram artisticamente pintadas pelas mãos do renomado e genial pintor Manoel Lopes Rodrigues e apresenta o mobiliário em jacarandá finamente trabalhado pelos hábeis artesãos de Cardoso e Silva.3

 
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FONTES

1 - Jornal A TARDE – 11 DE DEZEMBRO DE 1942 – P. 2.

2 - Britto ACN. Alfredo Britto, o estóico. A Medicina Baiana nas Brumas do Passado. Contexto & Arte Editorial: Salvador, p. 326, 2002.

3 - Relatórios de Dr. Lamartine de Andrade Lima.

 
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